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A Revolução Modernista no Brasil

CCBB apresenta a obra do pioneiro do modernismo brasileiro Flávio de Carvalho

Tamanho da Fonte      Redação CerradoMix

[legenda=A exposição ainda trará o original do famoso traje de verão – o New Look, especialmente concebido por Flávio para o homem dos trópicos]A provinciana cidade de São Paulo de 1955 não estava preparada para aquele homem escandaloso, performático, que decidiu subverter a moda e saiu às ruas trajando um saiote. Foi ainda na década de 1930 que a polêmica se instalou naquela cidade e tinha nome e endereço: chamava-se Flávio de Carvalho e morava na Rua Pedro Lessa, 2, onde ele liderava o Clube dos Artistas Modernos – CAM. A vida e obra do artista, junto com toda a atmosfera do CAM, estarão em destaque na programação do Centro Cultural de Banco do Brasil (CCBB) de Brasília no período de 7 de fevereiro a 29 de abril de 2012, com a mostra Flávio de Carvalho: a Revolução Modernista no Brasil.

 

Arquiteto, engenheiro, desenhista e escultor Flávio de Carvalho (1899 -1973), carioca radicado em São Paulo, teve várias facetas e a exposição retratará cada uma delas. Para isso, a curadora Luzia Portinari lançou mão de vários recursos. Além das 60 obras que darão ênfase à carreira de exímio retratista, o CAM será reproduzido com o máximo de fidelidade.

 


O agitador cultural

A sala multiuso reproduzirá o bar, o palco do Teatro da Experiência e o piano do famoso Clube. Lá também estarão vários painéis com reproduções e textos do artista para mostrar a faceta de agitador cultural de Flávio Carvalho, oenfant terrible que tumultuou o cenário artístico do País nas décadas de 1930 a 1950. O CAM foi criado um dia antes da Sociedade Pró-Arte Moderna – SPAM, em 24 de novembro de 1932. A Spam, capitaneada por Lasar Segall (1891 - 1957), era tida por Flávio como uma associação elitista, enquanto o CAM buscava uma atuação mais autônoma e irreverente. "Detestamos elites; não temos sócios doadores", costumava provocar o artista.


Filho de família rica, aos 12 anos foi para a França estudar. Posteriormente ingressou na Universidade de Durham, na cidade de Newcastle, Inglaterra, para cursar arquitetura e artes, retornando ao Brasil somente em 1924. “Flávio teve uma importância muito grande para o cenário artístico, não só pelas suas obras, mas por ter proporcionado a muitos artistas o contato com o que estava sendo produzido na Europa. Numa época em que os museus eram muito focados na produção acadêmica, foi muito importante esse associativismo”, ressalta a curadora.

 

Da mesma forma que o CAM foi o refúgio da vanguarda artística, durante a mostra o CAM cenográfico trará artistas que representarão frequentadores famosos do clubinho, como a cantora Elsie Houston e a artista plástica Tarsila do Amaral, que naquela época aproveitou o espaço para dar palestras sobre a arte soviética. Foi também no CAM que Osório Cesar, psiquiatra e diretor do Hospício do Juquery, organizou no Brasil as primeiras exposições de arte dos alienados. O “Mês dos Loucos e Crianças”, patrocinado por Flávio,  terá um espaço no clube com reproduções das obras que inauguraram uma nova visão e abordagem no tratamento psiquiátrico no mundo.

 

O performático

A exposição ainda trará o original do famoso traje de verão – o New Look, especialmente concebido por Flávio para o homem dos trópicos, com o qual ele passeou pelas ruas de São Paulo. Uma projeção holográfica do artista vestindo o traje também aproximará o público do que foi chamada de Experiência Número 3.


Essas performances públicas, que provocavam reboliço da sociedade, eram para Flávio, acima de tudo, uma forma de obter informações para o entendimento do seu maior desafio: o de conhecer os meandros psicológicos do homem.


Da mesma forma que o New Look foi o resultado prático de uma série de 39 artigos publicados no jornal “Diário de São Paulo”, fartamente ilustrados, tratando da história e evolução da moda sob o título “A moda novo homem”, Carvalho batizou de Experiência Número 2  a travessia de uma procissão em sentido contrário, a qual lhe serviu para escrever um ensaio sobre reações das pessoas individualmente e as transformações do comportamento coletivo, da “massa”.


Um tapete interativo, com imagens seguindo em sentido contrário, também remeterá o visitante da exposição a esse episódio em que Flávio quase foi linchado. “Ele afrontou a procissão e seus seguidores, com chapéu na cabeça e provavelmente resmungando frases ou palavras anticlericais. A reação foi imediata e num crescendo, a ponto de, em determinado momento, exigir uma retirada estratégica”, conta a curadora.


O pintor

Dentre tantas facetas de Flávio, a de artista é considerada a mais virtuosa. Com especial predileção pelo retrato, ele dissecava seus modelos, utilizando-se de uma liberdade cromática pouco comum na época, que davam às suas obras aspectos vibrantes e ao mesmo tempo perturbadores.

 

Mário de Andrade chegou a comentar ao se deparar com a sua imagem pintada por Flávio, um dos quadros que serão destaque da exposição. “Quando olho para o meu retrato feito pelo Segall eu me sinto bem. É o meu ‘eu’ convencional, o decente, o que se apresenta em público. Quando defronto o meu retrato feito pelo Flávio, sinto-me assustado, pois vejo nele o lado tenebroso da minha pessoa, o lado que escondo dos outros.”

 

Flávio retratou seus amigos e amigas, suas mulheres, intelectuais, artistas, jornalistas sempre com a intenção de captar o fundamental, através de uma percepção psicológica. Na famosa Série Trágica, ele chegou a retratar a própria mãe agonizando, em uma sequência de desenhos será reproduzida em painéis durante a exposição. Expressionista e surrealista, sua obra sofreu bastante influência da gravurista e pintora alemã Kathe Kollwitz (1867-1945). Também inovou utilizando materiais diferentes, por exemplo, tinta fosforescente para luz negra, presente em seus últimos trabalhos e que também estarão na mostra.

 


A mulher também foi uma constante em seu trabalho em sua primeira exposição, em 1931, no Salão Revolucionário da Escola de Belas Artes. Ao lado de pintores como Portinari, Lasar Segall, Cícero Dias, entre outros, ele expôs Anteprojeto para Miss Brasil, que estará presente na mostra. Junto com Modelo, obra pertencente ao acervo da Associação Paulista de Medicina e que pela primeira vez será exposta ao público, a figura feminina é retratada em forma sensual, mas carregada de crítica, que se revela, por exemplo, em uma miss negra.

 


O arquiteto

Muitos dos projetos arquitetônicos de Flávio, que nunca saíram do papel, vão ganhar forma em maquetes como a do Farol de Colombo, Projeto do Palácio do Governo – Eficácia e do projeto da “Cidade do Homem Nu”, tese apresentada em 1930 no IV Congresso Panamericano de Arquitetos, realizado no Rio de Janeiro, no qual Flávio apresentou-se como “delegado antropófago”. “Para ele, a missão dos povos nascidos fora do peso das tradições seculares seria o de criar o habitat do homem novo, despido dos preconceitos da civilização burguesa, livre dos condicionantes da igreja, sem Deus, sem propriedade e sem matrimônio”, explicou Luzia.



O público poderá conhecer detalhes da vida e obra de Flávio de Carvalho em painéis interativos multitouch com imagens, vídeos, documentos, textos escritos pelo próprio artista ou de críticas e reportagens da época.


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