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Entre a fantasia e a realidade

A cultura midiática está no centro das discussões do espetáculo JT – Um conto de fadas punk, dirigido por Paulo José e com estreia nacional agendada para 16 de fevereiro, no CCBB

Tamanho da Fonte     NARJARA CARVALHO
ncarvalho@jornaldacomunidade.com.br
 Redação CerradoMix

[legenda=A atriz Natália Lage encarna o controverso personagem JT LeRoy]Um escritor consagrado que nunca existiu. Essa é a temática da peça JT – Um conto de fadas punk, cujo roteiro traz a história do autor de livros de sucesso JT LeRoy (ou Jeremiah Terminator LeRoy), elogiado por estrelas como Madonna, Bono Vox e Winona Rider. Com texto de Luciana Pessanha, direção de Susana Ribeiro e direção geral de Paulo José, o espetáculo tem um elenco de peso, com Débora Duboc, Natália Lage, Nina Morena, Hossen Minussi e Roberto Souza.


JT LeRoy é, na realidade, a cantora punk Laura Albert. No ano 2000, ela criou um personagem adolescente, travesti, drogado e com problemas mentais. Escreveu livros  autobiográficos para esta figura emblemática e, logo após, sentiu a necessidade de tornar o escritor mais real, de mostrar o rosto dele para o mundo. Para representá-lo, Laura Albert escolheu Savannah Knoop, uma atriz, modelo e meia-irmã de seu marido, Geoffrey Knoop (Jeff). Na época, foi Savannah que se passou por JT LeRoy em festas de celebridades, sessões de autógrafos, entrevistas e eventos literários. Ficção e realidade se misturaram em um enredo que envolveu a imprensa, editoras, críticos literários e celebridades. A história ficou conhecida como uma das maiores “travessuras” da indústria editorial e o grupo acabou processado. A chocante notícia de que, na verdade, JT LeRoy tratava-se de Laura Albert, foi publicada pelo jornal americano The New York Times, em 2006.

Geração da imagem

A questão tratada na peça é resultado de toda a criação de um mito que conseguiu ser mantido por alguns anos e frequentou, com louvor, as rodas mais badaladas de Hollywood.


A montagem discute o que os sociólogos estão chamando de “geração da imagem” ou “geração midiática”, que tem fabricado muitas celebridades-relâmpago. Como JT LeRoy se tornou alvo da chamada imprensa de celebridades? Como seus livros foram publicados e estiveram no topo entre os mais vendidos? A criação e a “des”criação de uma celebridade é o cerne do debate. Trata-se de uma história inédita no Brasil sobre a autobiografia de um personagem inventado.


Bastidores da indústria literária

 

De acordo com a autora do espetáculo, Luciana Pessanha, a montagem deveria ter saído em 2007, quando um amigo lhe pediu uma peça. “Não deu certo, pois ele tinha outros planos”, diz. Em 2010, o projeto finalmente começou a sair do papel. “Fiz três grandes pesquisas e conversei por telefone, em duas ligações, com Laura Albert”, relata.


Para ela, Laura é um gênio por ter descoberto como funcionava a indústria literária. “Muitas editoras atendiam por caixa postal. Hoje é bem diferente, porque os autores precisam, por exemplo, enviar um vídeo lendo o livro junto com a cópia. Muitas vezes o livro é vendido no momento da leitura”, informa.


Segundo Luciana, a genialidade de Laura foi entender esse processo, assumir que não era apta para mostrar o rosto e, por isso, escolheu uma pessoa para representá-la. “Essa peça nasce do desejo de liberdade para Laura Albert e para os escritores contemporâneos. Liberdade da obrigação de estar confinado a uma identidade rígida, para criar biografias falsas, ou contar histórias verídicas, como se fossem ficção. Liberdade para nos escondermos atrás de personagens e falarmos, livremente, de uma solidão para a outra, em silêncio, como a literatura sempre fez”, conclui.

[legenda=O espetáculo JT – Um conto de fadas punk coloca em evidência a criação de mitos e celebridades-relâmpago na mídia]


JT – Um conto de fadas punk
De 16 de fevereiro a 11 de março; de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, trecho 2). Ingressos a R$ 6 e R$ 3. NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS.


Espetáculo rock’n’roll
Segundo a autora da peça, Luciana Pessanha, a peça é bastante movimentada, com muitos apelos sensoriais. “É um espetáculo rock’n’roll”, define. “O diretor Paulo José teve a ideia de trazer uma banda para o palco e eu achei brilhante”, frisa.


Em 2005, Luciana esteve na feira literária de Paraty (Rio de Janeiro) para entrevistar o então famoso escritor JT LeRoy, na época do lançamento de  seu primeiro livro no Brasil, Sarah (2000). Preparada para encontrar um jovem gay cheio de atitude, a autora se deparou com uma garota amedrontada (na verdade, era Savannah). Fizeram uma longa entrevista e alguns detalhes, não publicados na época, poderão ser conferidos no início da peça. Dois anos depois, Luciana descobriu que Laura Albert estava sendo processada pela produtora Antídoto Filmes, por ter mandado Savannah assinar um contrato de cessão de direitos autorais, se fazendo passar pelo escritor JT LeRoy.


De acordo com ela, a apresentação é fragmentada e a primeira entrevista do espetáculo é aquela feita em 2005, na feira de Paraty. “Eu, como autora, senti algo estranho naquela entrevista, mas não cheguei a falar nada, na época. Escrevi uma matéria sobre o livro”, conta.


Luciana disse ter tomado um susto quando, dois anos depois, a história sobre JT LeRoy estampou revistas e jornais em todo o mundo. “Quando eu soube, fiquei superinteressada e passei a pesquisar. Acompanhei todos os acontecimentos, os julgamentos dos envolvidos”, afirma.


Best-seller
O espetáculo exibe a trajetória da cantora punk mal-sucedida Laura Albert, que precisava trabalhar em um disque-sexo para pagar as contas. Há cerca de 10 anos, na tentativa de melhorar de vida, resolve escrever um livro e cria um personagem polêmico. Assim, nasce JT LeRoy, 16 anos, louro, olhos azuis, viciado em drogas, travesti e com problemas mentais. E é esse jovem que se torna febre no cenário literário mundial.


O livro Maldito coração foi lançado em 2001 e seria autobiográfico. O jovem se apresentou entre as celebridades como uma figura andrógina, logo tornou-se amigo de grandes nomes do cinema, da música e da moda. Maldito coração apresenta um garoto que teve a infância roubada quando foi transformado em prostituto infantil por sua própria mãe. Em pouco tempo, o texto alcançou o topo das publicações mais vendidas.


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