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Na Estrada, de carona com Walter Salles
Na Estrada não é um filme arrebatador, mas é, acima de tudo, uma experiência sensitiva
Tamanho da Fonte Humberto Viana Redação CerradoMix
Reza a lenda que Walter Salles foi convidado para dirigir a versão cinematográfica de Na Estrada (On The Road), o seminal livro de Jack Kerouac, depois de seu desempenho em O Diário da Motocicleta. Se o espectador for ao cinema em busca dessa mesma referência pode se decepcionar. Na Estrada traz uma linguagem menos palatável para o grande público e uma carga inevitável de pretensão artística. Não que isso seja ruim. O filme é, na verdade, melhor do que a crítica especializada alardeou após a sua exibição em Cannes, há dois meses, quando de sua estreia. O problema é que existe uma carga mitológica tão grande em torno da obra de Kerouac que é simplesmente impossível atender a todas as expectativas.
Na Estrada conta a história do jovem escritor Sal Paradise (Sam Riley), cuja vida é sacudida e inteiramente transformada pela chegada de Dean Moriarty (Garrett Hedlund), um jovem libertário e contagiante, recém-chegado do Oeste com sua namorada de 16 anos, Marylou (Kristen Stewart). Juntos, Sal e Dean cruzam os Estados Unidos em busca da última fronteira americana e à procura deles mesmos. Na viagem, ultrapassam todos os limites conhecidos dentro do excitante triângulo formado por sexo, drogas e jazz.
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A viagem, de fato, aconteceu, os personagens existiram e essa aventura resultou em muito mais que um dos livros mais famosos do mundo. On The Road lançou as bases da geração Beat e hippie. Não se traduz uma obra com essa magnitude impunemente. Salles optou por imprimir o ritmo de um poema lírico sobre as aventuras de Kerouac. Talvez ao modo em que tinha imaginado a viagem quando leu o livro nos anos 70. Nada mais justo. Mas ao fazer isso sepultou a imagem que cada um dos leitores de On The Road tinha em sua cabeça. É a praga da adaptação de livros para o cinema.
O desconforto inicial com imagens idealizadas por outro para uma história tão popular pode tirar o foco do que realmente importa: o filme como obra acabada e própria de um diretor. Nesse sentido Salles se sai muito bem. Retrata a América do fim dos anos 40 e do início dos anos 50 com primor e faz do livro de Kerouac matéria-prima para refazer o nascimento de um geração. Para isso se ampara em uma de suas características mais louváveis: a direção de atores e o apuro técnico.
Na Estrada mais do que capta a atmosfera da época, a amplifica. Calor, frio, loucura, velocidade. Na pele dos três protagonistas o desejo, a inconsequência e a paixão se convertem na essência da juventude. Sam Riley, Garrett Hedlund e, imagine só, Kristen Stewart estão perfeitos. Kristen, na pele da ninfeta Marylou, derrama toda a carga de tesão que se espera de uma relação com dois homens, sem cair no clichê da gostosa fatal. Sam é denso e Garrett abraça bem o papel do garanhão bissexual. Um triângulo amoroso cheio de amoralidades excitantes.
O roteiro é cheio de armadilhas. A viagem de Sal, Dean e Marylu não é só na estrada e tem significados outros. Pirar no delírio da juventude do pós-guerra é tarefa complicada, que pode dificultar a narrativa. Mas a adaptação de Salles soube se esquivar de tropeços e sobressaltos. O filme está repleto de cenas bem amarradas com paisagens pitorescas e nada convencionais. Destaque também para a trilha, um turbilhão do melhor do Bebop e Charlie Parker, claro!
Na Estrada não é um filme arrebatador, mas é, acima de tudo, uma experiência sensitiva. Um mergulho em uma época, um salto no escuro, um turbilhão de paixões. Vale, sim, o ingresso!
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