Agora, a primeira montagem deste espetáculo – que leva o nome de “O Cozido” - chega a Brasília a partir do próximo dia 30 de março (sexta-feira). Nesta data, estreia a peça, ganhadora do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, seguindo temporada de mais três finais de semana, totalizando 12 apresentações.
Considerado o precursor da Commedia dell’Arte, Beolco, à frente de sua companhia de camponeses, que foi a primeira companhia cômica constituída profissionalmente na Europa, entrava em cena também como ator, nas vestes de Ruzante, um pobretão, rústico e ingênuo, massacrado pela história. Guerras, carestia, miséria são os ingredientes de um alucinante afresco “a la Brueghel”, um dos mais ferozes e secos retratos da sociedade do renascimento que mostra o lado escuro, dominado pela economia da fome. O engano permanente, legado de atávica esperteza, é estratégia de sobrevivência e também de tática dramatúrgica, que dá ritmo de farsa subversiva à trama de O Mosqueta. Posta em cena por uma geração de atores, esta comédia é um feliz exemplo de como o grande teatro, mesmo nos episódios da mais viva comicidade, se propõe sempre como insubstituível percurso de conhecimento.
Sob direção da dramaturga italiana Alessandra Vannucci, o espetáculo traz no elenco experientes artistas locais como Abaetê Queiroz, Camila Meskell, Similião Aurélio e Marcos Davi. A cenografia e o figurino ficam por conta de Maria Carmen; e a tradução é de Alessandra Vannucci e Júlio Adrião.
O projeto faz parte do “Momento Itália no Brasil”, que começou em outubro de 2011 e vai até julho de 2012, promovendo as atividades socioculturais nos dois países. A ideia é aproveitar este momento para homenagear Angelo Beolco, o Ruzante, autor de “O Mosqueta” – nome da peça encenada, cujo nome foi trocado para “O Cozido”. Ao público será oferecido um espetáculo saboroso, com a potencialidade de desencadear a reflexão sobre os motivos do comportamento humano transformado pela fome.
Com apoio do Prêmio Myriam Muniz para a viabilização da montagem, a peça deve seguir temporada por outras cidades brasileiras, sobretudo aquelas com maior população de ascendência italiana.
Sobre a peça - “Mosqueta” é o nome do dialeto da língua mais refinada que se contrapõe ao dialeto camponês de Pádua, em geral, usado por Ruzante. No espetáculo, o personagem central se põe a falar mosqueta, quando se disfarça de “fino” para flagrar uma possível infidelidade de Betia, sua mulher, que percebe o logro e o castiga entregando-se a Tonin, soldado vindo da guerra. Assim, ela reata uma relação de adultério com o compadre Menato. Ruzante bota em cena um mundo camponês rude, mas bem melhor do que aquele afetado e enganador da cidade. A fome, a miséria do mundo camponês e a perda material-existencial causada pela guerra são ingredientes de alucinadas representações de tintas sociais densas, em que atrás da economia cômica dos ‘tipos’ se oculta um teatro da crueldade dos mais secos e lúcidos da Renascença. Em O Mosqueta (1528) Ruzante é envolvido por uma rede de necessidades que o obrigam a disputar sua própria mulher com dois homens, amantes, em sua ausência, da tempestuosa camponesa
Como um cozido que se faz com as sobras da comida do patrão e se torna melhor do que a refeição sem graça servida à mesa da casa grande, o espetáculo foi construído aos poucos, sendo degustado a cada gesto extraído e recolhido do cotidiano. O curioso é que tal cozido é preparado em cena, chamando a atenção do público pela originalidade e interatividade. E o melhor: pode ser degustado pelos espectadores no final do espetáculo.
Para facilitar o acesso do público ao teatro, moradores das Regiões Administrativas do DF, fora do Plano Piloto (asas Sul e Norte; lagos Sul e Norte; Cruzeiro e Sudoeste) terão meia entrada, ao apresentarem comprovante de residência.
Quando: 30, 31 de março e 1º de abril;
6, 7 e 8 de abril;
13, 14 e 15 de abril;
20, 21 e 22 de abril.
De sexta a sábado, sempre às 21h;
Domingos às 20h.
