Há 60 anos, o artista Abelardo Germano da Hora reuniu, na sede da Associação dos Empregados do Comércio do Recife (PE), uma série de esculturas em concreto armado. A exposição – a primeira que fazia – revelou para o eixo Norte/Nordeste uma arte que se opunha a tudo que era preconizado pelas escolas clássicas de até então. A força expressionista de seu trabalho estava carregada de crítica social, muito latente naquele ano de abertura política, em que o País se libertava do Estado Novo e se preparava para ter eleições livres.
Hoje, quando o Brasil se encontra sendo governado por um ex-sindicalista, chega a Capital Federal uma retrospectiva inédita da vida e obra deste eterno inconformista, precursor da arte cinética: AMOR E SOLIDARIEDADE - RETROSPECTIVA DOS 60 ANOS DA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO DO ARTISTA PLÁSTICO PERNAMBUCANO ABELARDO DA HORA.
No acervo, 130 obras, que somam 15 toneladas de arte em esculturas, gravuras e cerâmicas, que estarão expostas no Salão de Vidro e nos jardins do CCBB Brasília, no período de 30 de junho a 23 de agosto. Entre elas, um dos seus mais recentes trabalhos, o original do monumento Os Retirantes, uma escultura onde nove peças representam Dona Lindu, a mãe de Luís Inácio Lula da Silva, e seus oito filhos, dos quais o menor de todos retrata o próprio presidente.
“Somos companheiros de luta, cada um em sua área”, fala Abelardo, que no auge de seus 85 anos se diz disposto para continuar trabalhando e se enche de expectativas de ver seu trabalho sendo exposto na capital do poder, no prédio onde atualmente o presidente despacha. Quando perguntado sobre como acha que sua obra será recebida por Lula, ele responde, com simplicidade. “Eu estou satisfeito em ter feito. Quero saber é o que ele achou.”
Paixões que inspiram
Nascido em 1924, na Usina Tiúma, o pernambucano de São Lourenço da Mata é um dos poucos escultores expressionistas de vulto ainda em plena atividade no Brasil. Eclético, além de escultor, é pintor, gravador, ceramista, desenhista e poeta. Suas grandes fontes de inspiração – as injustiças sociais e as manifestações populares – percorrem todo o seu trabalho.
Na coleção de 22 desenhos Meninos de Recife, ele retratou a vida sofrida de meninos de rua da capital pernambucana. Também estarão na exposição as séries Danças Brasileiras, retratando o frevo e o maracatu, e Hora de Brincar, um registro das brincadeiras tradicionais das crianças.
Uma série de esculturas em bronze e concreto que exalta a beleza feminina, que ele chama de Mulher Objeto de Repouso, também revela uma outra paixão inspiradora. “Sou um apaixonado. A minha arte é toda feita de amor e solidariedade. Solidariedade ao sofrimento do meu povo e amor à mulher, que é o ser mais lindo e perfeito que existe na terra”, afirma.
Foi em Paris, na Galeria Debret da Embaixada do Brasil, em 1986, que Abelardo voltou a fazer outra exposição individual. As duas grades séries de esculturas em concreto, que tem como tema o cotidiano do povo pernambucano, foram para Europa e também desembarcam no CCBB de Brasília.
60 anos de história
A exposição de 10 de abril 1948 de Abelardo da Hora marcou o início do Movimento de Cultura Popular (MCP), em Recife, com a criação da Sociedade de Arte Moderna, congregando em seu entorno a nata dos artistas modernistas como Hélio Feijó (Presidente), Ladjane Bandeira, Reynaldo Fonseca, Augusto Reinaldo, Darel Valença, Delson Lima e outros artistas.
Na presidência SAMR, em 1949, fundou a escola de arte Atelier Coletivo. Pelas suas mãos passaram a maioria dos grandes artistas da atualidade de Pernambuco, dentre os quais José Cláudio, Corbiniano Lins, Guita Scharifker, Gilvann Samico, Wellington Virgolino, Wilton de Souza e Francisco Brennand, que largou a advocacia depois de acompanhar o trabalho de Abelardo na cerâmica do pai, o industrial Ricardo Brennand. “Tenho muito orgulho de ter ajudado a formar essa geração que está aí hoje, reconhecida”, diz.
Tel: 3310-7087